quinta-feira, 24 de outubro de 2019

O livro que toda trabalhadora cristã – dentro e fora do lar – deveria ler



Estou completamente imersa na crise profissional dos 30 anos. Nesse período emocionalmente conturbadíssimo, tenho sempre me perguntando: “O que estou fazendo da minha vida profissional?”. Foi nesse contexto de vida que acabo de ler “Mulher, cristã e bem-sucedida: redefinindo biblicamente o trabalho dentro e fora do lar”, das escritoras estadunidenses Carolyn McCulley e Nora Shank. O livro foi um achado em meio a tantos outros durante a Primeira Conferência Teológica Reformada do Pantanal. A editora Fiel, parceira do evento, esteve presente com inúmeras publicações com descontos de 30%. A conferência aconteceu exatamente no final de semana passado, nos dias 18 e 19 de outubro, na cidade onde atualmente moro, em Corumbá/MS.

Quando passei o olho pela mesa repleta de livros à venda, a obra que aborda a história do trabalho, a teologia do trabalho e o ciclo de vida do trabalho, chamou minha atenção. Completamente voltado ao público cristão protestante feminino, o livro tem o cuidado de desmistificar algumas “paranoias”, digamos assim, com relação ao trabalho feminino – seja ele remunerado ou não. A obra foi muito feliz ao retratar as mulheres dos séculos passados, quando elas trabalhavam junto ao marido e filhos no bom andamento das atividades do lar, época em que a economia e os negócios giravam em torno das famílias e dos lares.

Indo ainda mais além, as escritoras nos levam à época de Jesus e mostram como algumas profissionais se destacaram por serem auxiliadoras no trabalho evangelístico usando suas profissões para abençoar. Carolyn McCulley nos lembra o conceito de vocação de Martinho Lutero e destaca que tanto o homem quanto a mulher foram chamados pelo Senhor a servir, a trabalhar, seja dentro ou fora do lar. A obra valoriza tanto a mulher que trabalha fora de casa por necessidade ou escolha, quanto a que trabalha em casa cuidando da casa e dos filhos ou fazendo isso e ainda trabalhando em casa para aumentar renda.

Independente de ser chefe ou empregada, a mulher cristã, conforme o entendimento das autoras, precisa estar ciente de que Deus “usa o nosso trabalho diário como um meio de transmitir graça a outras pessoas e aprender mais sobre ele” (p.29). A ênfase em dizer e repetir não poucas vezes que o trabalho nos é concedido para glorificarmos a Deus e não para nos gloriarmos foi um “tapa na minha cara”. Somos impulsionadas de muitas formas a trabalhar, seja por um elogio, pelo dinheiro, por prêmios, por um destaque, mas a autora lembra que tudo isso é vaidade.  Toda caracterização feita de nós mesmas para nós mesmas vai passar, mas a única coisa que nunca vai passar é que somos filhas de Deus. Essa característica vamos ter até depois da morte e é ela a que mais importa.

Há um trecho bem interessante ainda na primeira parte do livro, na página 108, quando as autoras defendem o apóstolo Paulo quando ele diz que as mulheres não deveriam ser preguiçosas e tagarelas, falando o que não deve. Segue:

“Paulo foi contracultural em sua visão das mulheres. Ele encorajava as mulheres a serem produtivas em uma cultura que enaltecia o prazer. Ele as promovia. Paulo confirmava as mulheres no trabalho que elas faziam, como quem glorifica a Deus. Via o esforço das mulheres em seus lares – quem sabe, pelo exemplo de Lídia – como uma refutação estratégica à calúnia do Inimigo. Lídia foi uma mulher que usou tudo o que tinha – sua influência, seu lar, seus relacionamentos, seu dinheiro, até mesmo seu trabalho – para promover o avanço do evangelho. Talvez fosse isso que Paulo tinha em mente quando instruiu Timóteo e Tito a aconselhar as mulheres a não serem tagarelas preguiçosas e, em vez disso, voltarem a trabalhar, cuidando de suas casas”.

Para as autoras, Paulo defendia, na verdade, que todas as mulheres fossem produtivas, pois isso era bom ao Senhor, bom à família e bom à propagação do evangelho. A primeira parte do livro é encerrada com um tributo à obra poética de Provérbios 31. Enquanto Lídia trabalhava fora de casa, a mulher valorosa descrita pelo rei Salomão trabalhava incansavelmente em casa, não só no cuidado com os filhos e marido, mas fazia negócios a partir do lar.

A segunda parte do livro, a “Teologia do Trabalho”, foi a que mais falou comigo. De fato, Deus usou o livro para me esclarecer diversas situações e me fazer enxergar a minha atual condição com outros olhos.

“Devido à queda, em nosso trabalho podemos ter momentos de alegria por sermos portadores da imagem do Deus que trabalha até hoje, como também momentos de dor e frustração. O bom propósito da produtividade permanece, mas agora é um trabalho a ser realizado entre espinhos e cardos. O pecado é o que torna o trabalho difícil” [...] “Subjugar os espinhos e cardos é um trabalho árduo. O conceito de trabalho que surge da Escritura implica intensidade, energia autêntica e espírito pioneiro. Quando Deus chamou homens e mulheres a trabalhar, não era seu intento que as mulheres se assentassem à margem, observando os homens suarem. Nós, mulheres, devemos sentir o peso do trabalho que fomos chamadas a realizar” [...] “Esse chamado não é negociável. As mulheres, como também os homens, são chamadas a trabalhar. O quarto mandamento diz: ‘Seis dias trabalharás, mas no sétimo dia descansarás’ (Êxodo 34.21)”. (p.126 e 127).

As autoras também destacam como os reformadores cristãos, em especial Lutero, lidavam com o conceito a respeito do trabalho e mostra como o Protestantismo desmistificou a questão do trabalho secular e do trabalho sagrado, pois, para Deus, todo o nosso trabalho é sagrado. Quando você ouvir alguém separando os termos, essa pessoa precisa entender que todo o nosso trabalho, seja na igreja ou fora, é sagrado para o Senhor porque o propósito final dele é glorificar a Deus. Não existe vida secular e vida sagrada. Para o cristão, tudo na vida dele é sagrado, inclusive o trabalho como empregado de alguma empresa ou instituição pública ou como dono de um negócio.

O livro separa um capítulo somente para falar sobre a importância do descanso e outro para falar sobre ambição. A obra mostra como muitas vezes o contentamento é enfatizado em nossas rodas de conversa na igreja, mas a ambição é negativada ou diminuída. Somos seres naturalmente ambiciosos, isso é bom e normal, é o que nos leva a crescer e isso não é visto com maus olhos por Deus. A ambição só é nociva quando a direcionamos para o nosso ego e não para glorificar a Deus. A obra termina falando sobre o ciclo de vida do trabalho até alcançarmos a fase do “ninho aberto”, quando já não há mais filhos para cuidar ou já estamos aposentadas. As escritoras encerram lembrando às mulheres cristãs o seguinte texto bíblico:

“O justo florescerá como a palmeira, crescerá como o cedro no Líbano. Plantados na Casa do Senhor, florescerão nos átrios do nosso Deus. Na velhice darão ainda frutos, serão cheios de seiva e de verdor, para anunciar que o SENHOR é reto. Ele é a minha rocha e nele não há injustiça”. (Salmos 92.12-15).

Até na velhice o Senhor estará conosco, nós daremos frutos para anunciar que só Ele é o Senhor!

A leitura do livro marca meu retorno às leituras! Depois de mais de um ano e meio, após gravidez, parto e bebê com pouco mais de um ano, consegui finalmente voltar a ler. Uma grande vitória! :)

Ficha técnica
Obra: Mulher, cristã e bem-sucedida: redefinindo biblicamente o trabalho dentro e fora do lar
Autor: Carolyn McCulley e Nora Shank
Editora: Fiel
Páginas: 306
Ano: 2018
Preço na editora: R$ 52,92

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Mercado editorial consolida primeiro trimestre de crescimento em 2018

Foto: Rafael Arbex/ESTADÃO

Via ESTADÃO*
O varejo do mercado editorial brasileiro teve um primeiro trimestre positivo em 2018: o 3.º Painel das Vendas de Livros no Brasil mostra um crescimento de 8,76% em volume e 14,28% em valor no comparativo com 2017.

Apresentado pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) e pela Nielsen, o relatório tem como base o resultado da Nielsen BookScan Brasil, que apura as vendas das principais livrarias e supermercados no país.

O resultado também é positivo em comparação ao terceiro período de 2017: crescimento de 17,75% em volume de livros, e de 18,98% no faturamento.

Segundo o relatório, as categorias de "não ficção" foram as maiores responsáveis pelos bons números neste intervalo. As ações promocionais da semana do Dia do Consumidor (15 de março) também contribuíram para aquecer o mercado livreiro.

“A semana do consumidor e o Dia Internacional da Mulher passaram a compor o calendário promocional do livro", comenta o líder da Nielsen Bookscan Brasil, Ismael Borges, em nota divulgada pelo SNEL. "O desconto se mostra uma ferramenta para vender mais nestes dias analisados, apesar de não ter sido maior que o do ano anterior. A sensação é que as livrarias se prepararam com antecedência e colheram bons resultados.”

Extraído de: http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,mercado-editorial-consolida-primeiro-trimestre-de-crescimento-em-2018,70002273804

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Dia Mundial do Livro merece textão



Minha paixão por livros não é tão antiga assim. Tem cerca de dez anos apenas. Sim, “apenas”. Apenas porque estou com 30 anos de idade e vejo quanto tempo perdi longe dos livros. Na infância e adolescência, os colégios em que estudei sempre exigiam a leitura de livros didáticos e lia-os com prazer, mas também por obrigação. Eu não lia obras que escolhia, tampouco me interessava em escolher.
Meu interesse pelos livros surgiu quando me senti extremamente ignorante. Isso aconteceu no último ano da Universidade. Eu estava concluindo minha formação e estava me tornando uma jornalista sem conhecimento – de nada. A verdade é que jornalistas são seres sem conhecimento de nada. A gente não adquire conhecimento na Universidade. Lá, adquirimos técnica e, no máximo, conhecimento teórico sobre Comunicação Social. Como ter senso crítico político, econômico e cultural, por exemplo, sem conhecer nada? Entrei em desespero e parti para livros dos campos da história e da política.
Não contei para ninguém o tamanho da minha ignorância, óbvio. Esse tipo de coisa a gente guarda no mais profundo abismo do nosso ser. Conversando com um professor universitário, que se tornou meu amigo – hoje fazendo doutorado –, ele confessou que começou a ler apenas quando saiu da Universidade. Eu me senti aliviada! “Caline, eu comecei a me sentir tão burro que corri para a leitura. Lia um livro atrás do outro. Corri atrás dos clássicos da literatura brasileira e comecei minha paixão por livros assim”. Aquela confissão me deixou feliz.
Como trabalhava só pela manhã, logo após o almoço eu pegava um ônibus e ia direto para o maior shopping da cidade. Essa era a minha diversão a cada quinze dias. Mas, por que o shopping? Porque lá existia a livraria que eu mais amava. Em dia de semana, o ambiente era mais tranquilo. Chegava lá por volta das 14h e só retornava para casa depois das 17h. Não, não via vitrines. Ia direto para a livraria! Quando chegava lá, mal piscava os olhos. Seguia direto para o setor de política, história, jornalismo e literatura estrangeira.
Preciso falar do cheiro... Aquele cheiro que só tem naquela livraria. Eu não sei explicar, mas tinha um cheiro maravilhoso. Além do cheirinho de livro novo, um ambiente tão bem cuidado, tão lindo! Muitos livros, quantos livros! Queria tudo para mim. Às vezes, passava umas duas horas lá dentro e saía com pelo menos um livro. Com a fome batendo, ia tomar um cafezinho e saborear um pão de queijo na cafeteria do segundo andar do shopping. E começava a leitura. Antes que escurecesse, voltava para casa para não pegar o horário de pico, nem chegar muito no escuro. Era emocionante. Saudades disso.
Livros nos conectam a outras realidades, tempos e culturas. Estou até hoje apaixonada pela Rússia do século XIX. Tudo por causa de Dostoiévski. Não é a primeira vez que escrevo sobre isso, mas é que as obras desse autor são fantásticas demais. Por causa dele, passei a pesquisar mais sobre política e Rússia do século XX. Livros de próprios escritores russos, de homens daquele povo que morreram envenenados por causa dos seus livros. Minha concepção sobre política russa mudou drasticamente e meu entendimento sobre arquitetura e cultura russas cresceu bastante. A ignorância política, o analfabetismo funcional e as distorções que fazem hoje sobre o que de fato foi a Revolução Russa são o mal do continente latino-americano. Assim penso.
Comecei a criticar livros, apontar ideologias e compreender obras conforme o pensamento dos autores. Riscar passagens, escrever no canto das páginas, criticar autores, isso é tão gostoso! Marinheiros de primeira viagem no mundo da leitura não sabem fazer isso. Acreditam piamente em tudo o que está escrito só porque o autor é doutor em qualquer coisa. Quanto mais se lê sobre determinado assunto, mais existe o poder de comparação entre obras, autores e ideologias. Você acaba ficando com uma delas. Nunca fica em cima do muro. Minha percepção sobre ideologia política mudou bastante. Hoje entendo a necessidade que alguns governos têm de dominar o campo educacional, retirar algumas questões e enfatizar outras, conforme o “gosto” deles. Ocultar informações históricas, moldar apostilas de estudantes e incentivar a leitura de apenas alguns livros é emburrecer uma nação inteira.
Livros são prazerosos, às vezes acalentam a alma, outras vezes agitam-na. Livros de literatura nos ajudam a lidar com as diferenças e, mesmo sem haver concordância de pensamento, incentivam a refletir sobre o pensamento do outro e a respeitá-lo. Os livros nos tornam pessoas com mais prudência e, ao mesmo tempo, com mais ardor na alma para lutar. Cheguei à conclusão que pessoas estúpidas não leem ou pelo menos não sabem “ler”, mesmo “lendo” alguns livros. Pessoas que de fato tem hábito de ler livros geralmente não são estúpidas, nem soberbas. Arrogância de conhecimento não combina com vida de leitura.
Meus livros são meus amigos. Tenho ciúmes deles e não gosto que peçam emprestado. Tenho uns amigos-gente que me pedem para repassar livros lidos. Como assim, gente? Como me desfazer dos meus amigos-livros? Que me desculpem, mas, não posso largar meus livros. Só em vê-los em casa já me dão alegria. Não sou apegada a muitas coisas materiais, mas aos livros sou demais. Até livros-inimigos eu guardo em casa (aqueles profundamente criticados), só para vê-los e ter certeza do motivo de serem inimigos. Os únicos que repasso são os que realmente considerei ruins.
Quanto aos livros digitais, nada contra, mas não gosto. Eles não têm cheirinho, não têm beleza. Ah, são sem graça. Contam por aí falácias que os livros em papel vão um dia acabar. Espero que isso aconteça só depois que eu estiver morta. Se você soubesse o quanto detesto livros digitais, nem discutiria isso comigo. Nada contra, mas não gosto e ponto. Respeito seu amor pelos livros digitais da mesma forma que gostaria que respeitasse minha paixão pelos de papel.
Eu amo o Dia Mundial do Livro! Mais um 23 de abril que vai se passando e muitos textos e reportagens sobre o assunto a gente acaba vendo por aí. Só em lembrar deles, já fico feliz! Você que não é leitor assíduo de livros ou um dia foi e não tem mais tempo, reagende sua vida e crie um tempinho, você vai voltar a perceber o quanto a leitura de livros é gostosa e faz toda a diferença na vida da gente. É revigorante! Que essa data nunca passe despercebida. E que venham mais e mais livros!

domingo, 22 de abril de 2018

O Espiritismo segundo Jesus Cristo



Acredito que o livro de Israel Belo de Azevedo seja a obra cristã mais completa que já li sobre Espiritismo. O livreto, publicado pela Vida Nova, só tem de pequeno o tamanho porque o conteúdo é bem interessante. Não é uma obra detalhista no sentido teológico, mas um livro apologético que traz interpretações cristãs a fenômenos bíblicos utilizados pela doutrina Espírita de maneira distorcida.

No início da obra “O Espiritismo segundo Jesus Cristo”, o autor leva ao debate a questão de que muitos espíritas se considerarem cristãos sem de fato saberem o que é ser cristão. Ele discorre sobre o conceito de ser cristão baseado em pontos de vista bíblicos e não somente na moral cristã. Para se ter dimensão dessa confusão doutrinária, Israel Azevedo fez a comparação de certas crenças espíritas com o que a Bíblia diz.

Ele começa expondo que para o Espiritismo, a ideia de pecado não existe. No entanto, Jesus Cristo tira o pecado do mundo (João 1.29) e oferece perdão. Tudo dentro do cristianismo é alicerçado no poder de Cristo para perdoar e no arrependimento de pecados dos filhos de Deus. O Espiritismo também não aceita a doutrina da salvação, sendo Cristo o nosso Salvador. Para aquela religião, nossa salvação vem de sucessivas reencarnações. Para os adeptos dessa doutrina, Jesus foi o maior dos médiuns, pode agir como mediador, mas não é redentor. Os espíritas também não aceitam que Cristo é o próprio Deus, imagem do Deus invisível e criador de todas as coisas (Colossenses 1.15-20).

O autor da obra, jornalista pós-graduado em teologia e em história e doutor em Filosofia, depois de desmistificar a ideia que um espírita pode ser considerado cristão, ele vai expondo pontos-chave da doutrina espírita à luz da Bíblia. Usando sempre os escritos de Allan Kardec e de pensadores espíritas, Israel Azevedo realiza o comparativo entre o que eles pensam e o que a Bíblia diz e mostra o erro de interpretação bíblica dos defensores do Espiritismo.

Para Allan Kardec, a passagem bíblica que fala do novo nascimento (João 3) quer dizer que Cristo estava ali defendendo a reencarnação. No entanto, interpretando literalmente ou metaforicamente fica claro que a passagem afirma sobre a necessidade de nascimento espiritual e não biológico. Espíritas acreditam também que João Batista seria a reencarnação de Elias, mas ele disse taxativamente que não era Elias (João 1.21), ele era apenas um profeta no mesmo estilo que Elias (de vida, como sobrevivia, o que comia, vivia à margem da sociedade, etc).

Quando os discípulos perguntaram a Jesus a causa da doença do cego, Jesus foi bem claro rechaçando ideias de carma e reencarnação. Além disso, os judeus acreditavam em algo como maldição hereditária e não em reencarnação (João 9.1-3). “Para aceitar a doutrina da reencarnação, é preciso, então, aceitar o conceito kardecista de carma e negar o conceito bíblico do valor expiatório da morte de Jesus” (p. 50); ou seja, ou você é cristão ou você é espírita, impossível acreditar nas duas doutrinas ao mesmo tempo. “A cruz torna a reencarnação completamente desnecessária. O homem não precisa pagar pelos seus pecados. Jesus já fez este pagamento na cruz” (p.51). “A reencarnação anula o sacrifício de Jesus na cruz” (p. 51).

A mediunidade, que é a comunicação entre dois mundos, é uma das premissas do Espiritismo. Essa crença também é discutida pelo autor do livro que questiona más interpretações de algumas passagens bíblicas por parte dos espíritas. Onze passagens do Antigo Testamento condenam a consulta aos mortos e, mais que isso, aqueles que assim o fazia eram condenados à morte (Levítico 20.6; 20.27). Saul consultou necromante (I Samuel 28) e por isso foi morto por Deus (I Crônicas 18.13-14).

No Espiritismo, a função de um médium é agir como intermediário para aquele que deseja ouça algo do mundo dos mortos através dele. No entanto, não foi o que aconteceu na passagem da transfiguração de Jesus, quando Elias e Moisés apareceram. Primeiro, eles não foram invocados; segundo, eles não conversaram com os discípulos, nem sobre os discípulos; terceiro, a visão era um dos métodos utilizados por Deus para se comunicar com os homens que carecem muitas vezes de provas materiais e, ainda assim, aqueles discípulos, naquele momento, não entenderam a visão. Por fim, o autor fala da encarnação de Cristo e mostra que ele não foi fruto de reencarnação de ninguém.

O autor da obra foi muito atento aos detalhes que envolvem a interpretação de trechos bíblicos. O livro é bastante recomendável por ser acessível a todos os leitores, ter linguagem simples e ser bastante direto ao ponto. Importante para quem quer entender mais as diferenças entre ser cristão e ser espírita e o porquê de analisar cada passagem bíblica dentro de seu contexto maior: a Bíblia como um todo.

Ficha técnica
Obra: O Espiritismo segundo Jesus Cristo
Autor: Israel Belo de Azevedo
Editora: Vida Nova
Páginas: 144
Ano: 2010
Preço da editora: R$ 26,90