Pular para o conteúdo principal

Abusado: O dono do morro Dona Marta

Abusado: O dono do morro Dona Marta faz tempo que li, mas como não havia resenhado antes, resolvi fazê-lo. Vencedor do prêmio Jabuti 2004 na categoria reportagem e melhor livro do ano não-ficção, a obra é interessantíssima. Primeiramente, muito bem elaborada, detalhista, bem redigida em forma de romance. Tem como personagem principal o chefe do tráfico daquele morro, anos antes de ser pacificado.

Há vários pontos a serem analisados e debatidos no que concerne à estrutura social brasileira, em especial a das grandiosas cidades. Lembrando que o livro é escrito pela ótica dos favelados, e não pela visão do restante da sociedade ou da Polícia Militar. Temos de um lado profissionais que deveriam prestar assistência à sociedade protegendo-a invertendo seu próprio papel social: aderindo ao tráfico, corrompendo-se. Por outro lado, temos pessoas extremamente marginalizadas que já nascem em ambientes com condições terríveis de habitação, educação, infraestrutura, saúde, enfim, vítimas do acelerado desenvolvimento econômico que contrasta com o lerdíssimo progresso social da nação.

O livro expõe a realidade completamente distinta de quem vive, trabalha e sobrevive em áreas comandadas pelo tráfico. O desenvolvimento da reportagem de Caco Barcellos é bastante instigante. O episódio em que ele narra a vinda de Michael Jackson ao Brasil e a filmagem do clipe They Don't Care About Us (confira logo abaixo) é espetacular! Como se deu as negociações entre os diretores do clipe, a aliança temporária firmada entre o tráfico e a PM para pacificar a favela durante a gravação, a raiva do Pode Público quando soube que esta informação havia vazado para a sociedade, as distorções das histórias verdadeiras, tudo muito bem relatado neste livro. Inclusive, o Dono do Morro está presente no vídeo! Sendo que eu não sei quem é, já tentei ver muitas vezes, mas não dá pra identificar qual deles é o Juliano.

O final da obra foi mudado algumas vezes, pois logo quando foi lançada a primeira edição, o Dono do Morro ainda estava vivo. A edição que li foi a 21ª. O livro vale muito a pena ser lido. O único risco que você corre é de começar a falar com a linguagem do tráfico... Aconteceu comigo! Eu vivi dentro do livro durante minha leitura, e foi bastante interessante esta experiência. É aventura do começo ao fim! Indispensável para jornalistas brasileiros. 

Título: Abusado: o dono do morro Dona Marta
Autor: Caco Barcellos
Gênero: Livro-reportagem
Editora: Record
Páginas: 560p.

O que disseram:

“Radiografia do tráfico” – Época

“Com linguagem ágil e dinâmica, em que transcreve ao pé da letra o modo como aquela população se expressa, ele traça a trajetória de Juliano VP da infância até sua entrada e ascensão no tráfico de drogas na favela e a implantação do Comando Vermelho” – Valor

“A leitura de Abusado é vasta de histórias de amor e lealdade, bem como de operações e fugas mirabolantes, aparentemente só possíveis no cinema, mas que se repetem todos os dias” – IstoÉ Gente

“O livro equilibra tanto as características de bom romance quanto a obsessiva apuração que constrói uma boa reportagem” – Zero Hora

Abaixo, clipe They Don't Care About Us, de Michael Jackson:

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

BLOG ENCERRADO

 Finalmente resolvi encerrar o Li Alguns Livros. Não vou deletar nada, mas não pretendo mais divulgar, nem atualizar. Tenho esse blog desde setembro de 2011. Foram quase 15 anos atualizando de vez em quando... (risos). Mas eu gostava, mas agora cansei. Agradeço as mais de 68 mil visualizações, mas esses "protocolos" do Google nos últimos anos (bloqueando nas pesquisas os blogs e favorecendo sites de venda) prejudicaram muito os blogueiros. Lembro da época em que assuntos escritos neste blog apareciam nas pesquisas do Google, coisa que hoje não aparece absolutamente nada. Mas depois de compreender melhor como funcionam "as coisas", entendi que não era interessante para o Google que os blogs continuassem tendo o "ibope" que tinham há dez anos atrás. Pelo menos o Youtube agora ainda é "livre" (se você for esperto e não usar certas palavras e fingir não falar sobre "certos assuntos"), mas infelizmente não tenho perfil de Youtube, então ence...

Chips humanos: um desastre para o mundo

Lembro-me que em 2003, Antônio de Cunha Lima, um dos donos da Central Brasileira de Negócios, afirmou querer comercializar, aqui no Brasil, chips de implante humano no valor de R$ 700,00. Não sei se esse investimento deu certo, mas sabe-se que em algumas nações, em especial o Japão, esse processo tem sido cada vez mais adotado pela população. Neste chip, ficaria gravado tudo sobre você: documentação completa, inclusive questões de saúde e créditos bancários. (Confira aqui mais informações na VEJA online). Implantado preferencialmente na mão ou na testa, o Governo logo identificaria quem você é, o que você faz e sua localização. Aí está o problema. O poder político teria todo o controle sobre a população. Possivelmente, perseguições políticas, que hoje existem, seriam ainda mais cruéis, pois o chip, sendo controlado pelo Governo, poderia ser bloqueado pelo próprio. A pessoa, dona do chip, ficaria impossibilita...

O menosprezo pela literatura

Só quem entende a importância da literatura é realmente quem a lê. Uma pessoa me disse que literatura era perda de tempo e, por isso, só lia livros técnicos. Quanta ignorância! É pela literatura que enxergamos diferentes formas de ver a vida, diferentes formas de expressão da língua e conhecemos até mesmo histórias verdadeiras (muitas vezes contadas nas entrelinhas). Pela literatura conhecemos como são e como eram as cidades, a vida cotidiana, a cultura e a geografia dos lugares, conseguimos desenvolver nossa comunicação, nossos pensamentos e nossa escrita. Os livros técnicos não chegam nem aos pés do que a literatura pode desenvolver na mente humana. Não se pode comparar, cada um tem sua finalidade. Literatura é arte, livro técnico não. Mas, o que esperar de um país que mal sabe o que é Arte? Onde seus habitantes confundem pichação com pintura e pornografia com música? Já fui à Rússia e voltei algumas vezes, mas isso foi em séculos passados. Conheci a cultura dos anos de 1800 da...