segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Duas narrativas fantásticas

Publicada pela primeira vez na revista mensal “Diário de um escritor”, em 1876, “A Dócil” relata o conturbado casamento entre uma jovem de 16 anos e o dono de casa de penhores na faixa de seus 40 anos. Considerada uma pobre moça, necessitada de tudo, a “dócil” mostra que toda doçura tem seu lado cruel e, ao mesmo tempo, inocente. Sem saber o real motivo de seu suicídio, o marido se torna refém de seus questionamentos sobre o que a levou à morte e acaba tendo algumas conclusões pela lembrança do olhar dela em determinadas conversas.

A vontade de saber se a esposa o amava o não, se o desprezava ou não, se tudo era uma mentira ou não. Ele estava lá, parado, na frente do corpo da mulher que ele adorava quase que com veneração. Aquela mulher amável que chegou a apontar um revólver para sua cabeça enquanto dormia. Por quê? Havia um por quê? Gestos, olhares, situações, tudo o que há de mais corriqueiro Dostoiévski leva em consideração na história de seus personagens. Detalhes dos pensamentos, das dúvidas, o contraditório humano e suas necessidades mais íntimas.

Já em “O Sonho de um homem ridículo”, publicado pela primeira vez em 1877, o escritor russo expõe a decadência da Humanidade. O homem que se considera ridículo por ele mesmo e pela sociedade teve um sonho em que depois da morte iria para um lugar onde encontrou pessoas que amavam por amar, viviam por viver e eram felizes. Até que algum fator externo, que o sonhador considera ele próprio, corrompe esses seres imaculados que passam a desejar o melhor para si próprios e não mais para o próximo. A sociedade decadente envolta pelo egoísmo, egocentrismo e pela falta de amor é tema desta narrativa.

As duas novelas expõem um escritor mais maduro, seguro do comportamento sempre contraditório de seus personagens, que brinca com maestria com a personalidade humana, como o grande mestre da psicanálise ficcional.

Título: Duas narrativas fantásticas: A Dócil e o Sonho de um homem ridículo
Autor: Fiódor Dostoiévski
Gênero: Ficção russa
Editora: Editora 34
Páginas: 128

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