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A Teologia Afetuosa de Richard Sibbes

Há muito tempo admirador do pastor anglicano Richard Sibbes, o teólogo batista Mark Dever foi convidado pelo editor da série “Um perfil de homens piedosos” para escrever sobre esse conformista do século XVI. “A teologia afetuosa de Richard Sibbes” resgata a história deste “anglicano calvinista” e dissipa dúvidas a respeito da sua teologia e vida. O livro, publicado em português pela editora Fiel no ano de 2018, inicia esclarecendo que os sermões de Sibbes eram mais voltados para a prática cotidiana dos fiéis do que para um estudo teológico mais aprofundado. Suas pregações eram raramente polêmicas, mas cheias de afeto, gentileza e da graça de Deus.

Sibbes sempre esteve ligado a instituições famosas, alcançou respeito e foi moderado em uma época onde os conflitos entre a Igreja da Inglaterra e os não conformistas calvinistas eram intensos. Segundo Dever, Sibbes enfatizou em seus sermões as emoções na vida dos cristãos, insistiu na possibilidade de os cristãos terem a certeza da salvação e discursou notavelmente sobre o papel da consciência na vida cristã.

Nascido em 1577, viveu apenas 58 anos. Alcançou cargos em Cambridge, mas também em Londres. Aos 33 anos, tornou-se bacharel em divindade, respondendo a questionamentos dentro da universidade, mas pregando publicamente sempre para o povo simples. Por conta disso, ficou conhecido como “o pregador público da cidade de Cambridge”, pois pregava em inglês para o povo e não em latim, como acontecia na universidade. Mesmo não obedecendo a todas as ordens da Igreja Anglicana (pois não pregava com a vestimenta obrigatória, não fazia o sinal da cruz no batismo, não se ajoelhava no momento da comunhão), continuou como pregador dessa Igreja.

Sibbes tinha um forte poder de fazer amizades e acabou tornando-se benquisto entre advogados e tinha patrocinadores nobres. Ele era defensor de uma teologia reformada consistente, mas ficou conhecido como teólogo moderador e pacificador. Ele tinha o objetivo de preservar os elementos fundamentais do cristianismo com o intuito de mostrar a beleza da glória de Cristo no interior das pessoas, pois acreditava que questões confusas da teologia não traziam edificação para a alma. Ele era um conformista bastante piedoso, que preferia ter esperança em Cristo pela causa da Igreja do que entrar em conflito com ela. Ele era um questionador, mas nunca foi um dissidente; nem ele, nem os amigos mais próximos a ele.

Considerado um puritano moderado, seus sermões foram marcados por frequentes menções à amizade. Ele disse uma vez que amigos piedosos eram como “sermões ambulantes”. Ele foi solteiro a vida toda e, por isso, sabia bem o valor de uma amizade.

Embora não batesse de frente com o reinado inglês, suas pregações tiveram também comentários bastante oportunos, além de ter ajudado a escrever carta que pedia ajuda a refugiados protestantes. Chegou a dizer em seu sermão que “um homem é escravo de Satanás quando é inimigo da exposição da Palavra de Deus” ao referir-se ao rei Charles, que havia promulgado, em 1629, uma ordem impedindo pregações daqueles que não tinha ofício pastoral e ainda obrigando todos a pregarem dentro de paróquias e usarem a liturgia oficial da Igreja da Inglaterra.

Embora Sibbes questionasse certas decisões da Igreja da Inglaterra, defendia sua permanência nela, afirmando, no final da sua vida, que “cada cristão tem, nesta vida, uma iluminação diferente e uma visão diferente”. Os sermões do pastor, embora doces, eram recheados de críticas aos defensores do formalismo e dos cerimonialismos, o que atacava diretamente tanto a igreja inglesa quando a Igreja Romana. Ele era totalmente contra o arminianismo e defendia o pacto. Ele afirmava que, quanto aos que estavam se separando da igreja da Inglaterra, deveriam ter mais sabedoria e que a Igreja de Cristo é um “hospital público em que todos estão, de alguma forma, infectados com alguma doença espiritual”, portanto, todos deveriam ter humildade, pois, para fins particulares eles estavam se separando e “machucando a igreja”. Sibbes defendeu a todo custo a Igreja da Inglaterra:

 

Haverá uma miscelânia e uma mistura na Igreja visível enquanto o mundo durar [...] Então, se um homem abandona a igreja, por corrupções reais ou imaginárias, é como matar a alma [...] Assim, deixe-me admoestá-lo a voltar desses caminhos extravagantes e a se submeter à sagrada comunhão dessa Igreja da Inglaterra verdadeiramente evangélica. (SIBBES, Richard. In. DEVER, Mark. P. 66).

 

Bem no final de sua vida, a moderação que Sibbes defendia estava desaparecendo e dando lugar à polarização na Igreja. Sua teologia defendia claramente a predestinação, a expiação limitada, discorria sobre a eleição, mas não se prolongava no assunto em seus sermões, estimulando em suas prédicas assuntos mais práticos do dia a dia. Ele também advertia contra a idolatria dos sacramentos e contra a ideia de que Deus sempre confere graça com os sacramentos. Para ele, a função dos sacramentos não é preparar para a conversão, mas fortalecer, confirmar ou garantir a fé que já está presente.

Richard Sibbes defendia que a conversão precisava acontecer no coração, pois o conhecimento por si só não salva, mas o conhecimento santificado, apoderando-se das afeições. Para o pastor inglês, “tanto a mente como o coração precisam ser mudados – a mente é iluminada e os próprios desejos e sabores do coração são alterados. Deus precisa entrar no coração para governá-lo, apoderando-se das potências da alma, subjugando a insurreição interior do coração e a rebelião inata contra a verdade de Deus; ele precisa tornar o coração humilde abrindo o coração para crer e operando nele para fazê-lo arrepender-se” (p. 104).

 

Deus inclina o coração para si mesmo e liberta a vontade para servir a ele. Embora o homem completo continue a ser afetado pela Queda, o entendimento iluminado terá uma capacidade cada vez maior de julgar corretamente, havendo obediência a ele, em vez de coação, permitindo, assim, que o homem se mostre diferente dos animais. (DEVER, Mark. P.104).

 

As pregações de Richard Sibbes eram afetuosas porque ele acreditava que desta maneira Cristo era verdadeiramente apresentado aos corações do povo. Ele destacou em sua vida que o que mais nos afasta de Deus são nossas afeições pelo mundo, nosso amor pelo mundo. Para ele, deveríamos usufruir do que está no mundo sem amarmos com todo o nosso coração os seus benefícios. Outro ponto a se destacar do ministério dele era o fato de o pregador incentivar seus ouvintes a terem a certeza da salvação. “Você já sentiu a alegria do Espírito nas atividades sagradas depois de lutar interiormente contra suas cobiças e conseguir vencê-las? Esse é um sinal seguro de que você foi selado por Deus”. Ele também apresentava a santificação como uma evidência da salvação. “Todos nós precisamos encontrar a felicidade em nossa santidade”. Ele enfatizou que a consciência desempenha papel fundamental nisso, mas sempre frisou a tríplice base reformada da salvação: uma consideração pela obra objetiva de Cristo, o testemunho interior do Espírito Santo e as obras correspondentes da vida regenerada.

Embora nunca tivesse defendido que a consciência está sempre certa, Sibbes explanava muito sobre o cristão prestar atenção à sua própria consciência. Ele afirmava que o crente precisa ter a consciência sensível a respeito da ira de Deus quanto ao pecado, o que o ajuda em sua santificação. Ele pregava que uma boa consciência não procedia de uma obediência perfeita, mas de um coração sincero que se esforça em obedecer. A consciência do cristão também deve ser tranquilizada por Deus diante da acusação de pecados que já foram perdoados.

O livro de Mark Dever é repleto de citações de Richard Sibbes. Achei algumas tão belas que resolvi finalizar essa sinopse com elas. O livro acaba, sem querer, incentivando o leitor a conhecer melhor o teólogo inglês e a procurar ler obras dele.

 

“Amados, adquiram o amor [...] o amor nos derrete para sermos moldados à imagem de Cristo. O amor nos constrange e contém em si uma espécie de violência santa. As águas não podem apagá-lo. Nós nos gloriamos no sofrimento por aquilo que amamos. Nada pode apagar aquele fogo santo que o Céu acendeu. É uma graça gloriosa” (Richard Sibbes).

“O amor é uma afeição de união. Nós somos ligados ao que nós amamos”.

“Quanto mais amoroso for o cristão, mais humilde ele será” (Richard Sibbes).

“Quando vemos que nossos corações ardem de amor por Deus, podemos saber que Deus brilhou em nossas almas no perdão do pecado; e proporcional à medida do amor é a certeza de que fomos perdoados” (Richard Sibbes).

“A vida do cristão deve ser uma meditação sobre como libertar as suas afeições das coisas inferiores. A morte será mais fácil para aquele que já morreu nas afeições [...] Aquele cujos pensamentos estão sempre no Céu vê-se livre de ser agitado de um lado para o outro pelas tempestades aqui da terra” (Richard Sibbes).

“O amor pelas trevas é uma afeição que causa cegueira”.

“Aquilo que o homem interior trata como supremo, aquilo que mais amamos, aquilo que mais confiamos, aquilo que mais tememos, aquilo que é a maior causa de nossa alegria e deleite, aquilo a que mais obedecemos – esse é o nosso deus”. (Richard Sibbes).

“Os cristãos passam por diversas fases [...] O homem, a mais perfeita das criaturas, é aperfeiçoado aos poucos”. Richard Sibbes.

 

Ficha técnica:

Obra: A Teologia Afetuosa de Richard Sibbes

Autor: Mark Dever

Editora: Fiel

Páginas: 163

Ano: 2018


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